Todo o sentimento
Para ler ao som de
Maria Bethânia cantando
Chico Buarque
Maria Bethânia cantando
Chico Buarque
Querido R. A.,
Hoje abri minha caixa azul. Tinha algumas coisas para guardar lá dentro, outras tantas para organizar, e aproveitei um fiapo de disposição que me surgiu no meio da manhã. Coloquei Maria Bethânia para tocar, porque beleza é fundamental nessas horas, e fui me aventurar no meu passado que começa há muitos anos e vem até aquele mais próximo. Logo por cima da montanha de guardados, vi o ingresso autografado do show do Rufus Wainwright, que está na caixa há umas duas semanas.
No meio de tudo, encontrei a primeira carta que você me mandou. Quatorze anos, a contar da data do selo. Alias, só tenho outra igual a essa, originada um ou dois anos depois. Quando eu penso em mim mesmo quatorze anos atrás imagino um menininho franzino, que mal sabia ler. Estranho, porque nessa época eu já tinha nove, dez anos. Sempre me imagino uma criança, mesmo se for pensar em seis, sete anos atrás. E, quando eu era criança, me imaginava com a idade que tenho hoje bem diferente do que sou. Acho que, quando eu estiver uns quarenta, vou corresponder a essa imagem com mais exatidão.
A carta, um tanto quanto simples, teve como pretexto retribuir um cartão de natal que eu tinha enviado. Coisas de quem, desde sempre, gostou de missivas. De aguardar impacientemente o carteiro surgir na esquina com um envelope na mão, mil notícias dentro e outras tantas suposições na cabeça. Será que era uma carta boa? Será que era para cobrar alguma coisa? Ou será que era apenas um fragmento de diário, talvez copiado literalmente de algum exemplar, e enviado pelo correio como se fosse material inédito?
Reli a carta umas duas vezes, entre uma ou outra revirada nos papéis. Me lembrei daquela época, das nossas conversas, das brincadeiras no intervalo das aulas... Do seu ar de virginiano sério, calado, observador; e da minha falação típica de uma pessoa com sol e lua em Gêmeos e ascendente Câncer. Claro que, naqueles tempos, eu ainda não sabia tudo isso, mas todas as características batem perfeitamente.
E fui tentar me recordar quando foi a última vez que nos encontramos, conversamos e rimos dos outros, como nos velhos tempos que chegávamos cedo para as aulas e ficávamos fazendo nada na porta do colégio. A última lembrança que tenho é de um encontro em dezembro de 2001, algumas conversas, pizzas e uma volta para casa caminhando pela madrugada escura dessa cidade, ambos um pouco alterados pela bebida e pela ameaça de chuva.
Depois disso, o máximo que lembro é da gente se esbarrando por esquinas, sem tempo para conversar, saber como anda a vida, projetos, sonhos, amores... Mas você não é o único. Daquela época não me restou ninguém. Claro, ainda trombo com as pessoas em ônibus, supermercados, conhecidos de conhecidos. E tenho quase certeza que ninguém restou para ninguém, que todos partiram em direções opostas e que vão se distanciando a cada dia. Chega a ser engraçado pensar que pessoas tão próximas foram se afastando aos poucos, até virarem rostos desconhecidos pelos corredores e apenas tchaus dados de longe. Isso me lembra um trecho lindo, de um filme do Rob Reiner, que diz assim: “embora eu não o visse há mais de dez anos, sei que sentirei sua falta para sempre”.
Não envio essa carta com o intuito de forjar uma reaproximação, talvez um bar num happy hour de sexta-feira, ou alguma ligação telefonica numa manhã nublada. Esta carta é só para dizer que sentirei sua falta, para sempre...
Beijos...
F.D.





