domingo, 25 de maio de 2008

Todo o sentimento



Para ler ao som de
Maria Bethânia cantando
Chico Buarque


Querido R. A.,

Hoje abri minha caixa azul. Tinha algumas coisas para guardar lá dentro, outras tantas para organizar, e aproveitei um fiapo de disposição que me surgiu no meio da manhã. Coloquei Maria Bethânia para tocar, porque beleza é fundamental nessas horas, e fui me aventurar no meu passado que começa há muitos anos e vem até aquele mais próximo. Logo por cima da montanha de guardados, vi o ingresso autografado do show do Rufus Wainwright, que está na caixa há umas duas semanas.

No meio de tudo, encontrei a primeira carta que você me mandou. Quatorze anos, a contar da data do selo. Alias, só tenho outra igual a essa, originada um ou dois anos depois. Quando eu penso em mim mesmo quatorze anos atrás imagino um menininho franzino, que mal sabia ler. Estranho, porque nessa época eu já tinha nove, dez anos. Sempre me imagino uma criança, mesmo se for pensar em seis, sete anos atrás. E, quando eu era criança, me imaginava com a idade que tenho hoje bem diferente do que sou. Acho que, quando eu estiver uns quarenta, vou corresponder a essa imagem com mais exatidão.

A carta, um tanto quanto simples, teve como pretexto retribuir um cartão de natal que eu tinha enviado. Coisas de quem, desde sempre, gostou de missivas. De aguardar impacientemente o carteiro surgir na esquina com um envelope na mão, mil notícias dentro e outras tantas suposições na cabeça. Será que era uma carta boa? Será que era para cobrar alguma coisa? Ou será que era apenas um fragmento de diário, talvez copiado literalmente de algum exemplar, e enviado pelo correio como se fosse material inédito?

Reli a carta umas duas vezes, entre uma ou outra revirada nos papéis. Me lembrei daquela época, das nossas conversas, das brincadeiras no intervalo das aulas... Do seu ar de virginiano sério, calado, observador; e da minha falação típica de uma pessoa com sol e lua em Gêmeos e ascendente Câncer. Claro que, naqueles tempos, eu ainda não sabia tudo isso, mas todas as características batem perfeitamente.

E fui tentar me recordar quando foi a última vez que nos encontramos, conversamos e rimos dos outros, como nos velhos tempos que chegávamos cedo para as aulas e ficávamos fazendo nada na porta do colégio. A última lembrança que tenho é de um encontro em dezembro de 2001, algumas conversas, pizzas e uma volta para casa caminhando pela madrugada escura dessa cidade, ambos um pouco alterados pela bebida e pela ameaça de chuva.

Depois disso, o máximo que lembro é da gente se esbarrando por esquinas, sem tempo para conversar, saber como anda a vida, projetos, sonhos, amores... Mas você não é o único. Daquela época não me restou ninguém. Claro, ainda trombo com as pessoas em ônibus, supermercados, conhecidos de conhecidos. E tenho quase certeza que ninguém restou para ninguém, que todos partiram em direções opostas e que vão se distanciando a cada dia. Chega a ser engraçado pensar que pessoas tão próximas foram se afastando aos poucos, até virarem rostos desconhecidos pelos corredores e apenas tchaus dados de longe. Isso me lembra um trecho lindo, de um filme do Rob Reiner, que diz assim: “embora eu não o visse há mais de dez anos, sei que sentirei sua falta para sempre”.

Não envio essa carta com o intuito de forjar uma reaproximação, talvez um bar num happy hour de sexta-feira, ou alguma ligação telefonica numa manhã nublada. Esta carta é só para dizer que sentirei sua falta, para sempre...


Beijos...

F.D.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Gracelles I - Tanto



Você não estava em casa. Mas, mesmo assim, entrei. Peguei a chave que sempre que você esconde embaixo daquele vaso de planta que sua mãe te deu na última primavera. Sua casa estava desarrumada. Pensei que não tinha mais tempo para ajeitar tudo, já que trabalha o dia todo e ainda estuda à noite.

Vi aquele seu vestidinho simples, mas que você gosta tanto, jogado naquele sofá onde tantas vezes sentamos para conversar, ouvir música ou comer alguma coisa. Lembro bem do dia que você comprou o vestido, estava quente e você queria uma roupa nova para ir àquela festa dos meus amigos. Não rodamos muito e você se encantou com aquela peça, exposta numa vitrine em uma loja qualquer. Entrou, vestiu e nem deu-se ao trabalho de procurar outra coisa. Era aquele.

Escolhi um cd para tocar, dentre os muitos que votê tem em casa. Queria preencher o espaço vazio até sua chegada. Flertei com uma daquelas coletâneas genéricas do Tom Jobim, que até hoje não entendo o motivo que te leva a comprar essas compilação mal feitas, mas resolvi colocar o Blue, da Joni Mitchell, que você ganhou daquela sua amiga que foi para Nova York trabalhar por um tempo. Lembro que você ficou tentada a ir junto com ela, mas desistiu na última hora por falta de dinheiro.

Decidi ir até a cozinha, preparar alguma coisa para que você comesse quando chegasse da aula, e quem sabe me lançasse aquele sorriso de satisfação seguido por elogios à comida, ao cuidado, ao carinho.

Sua geladeira estava vazia, mas consegui garimpar alguma coisa que daria um sanduíche leve. Era até melhor que fosse algo realmente leve, uma vez que já estava tarde e você provavelmente comeria pensando em um banho e uma cama.

Enquanto picava um tomate, para combinar com o queijo e a alface que já estava meio passada, ouvi os primeiros acordes de A Case of You. Foi então que Joni Mitchell me lembrou que "our love got lost", sem você dizer nada sobre ser constante ou eu fugir para um bar qualquer.

Juntei rapidamente minhas coisas e, antes de sair, dei uma última olhada no seu apartamento. "Tudo parecia tão real...", sussurrei, enquanto trancava a porta.




Gracelles
é uma série de contos inspirados no álbum Grace, do Jeff Buckley."Tanto" faz referência a So Real.

domingo, 20 de abril de 2008

Pelo direito dos homens de usar bolsinha


Como tudo que é interessante nesse mundo, não se sabe ao certo onde elas surgiram, quem as inventou, ou como se tornaram o que são hoje. Basta uma breve caminhada por um ambiente um pouco mais agitado que você as encontrará, de vários tamanhos, formatos, cores, disposições. Algumas são enormes e levam de livros a objetos de primeira necessidade, como batom, espelhinho, carteira, cigarros e – por que não? – camisinhas. Outras são tão pequenas que mal comportam a chave de casa. Seja para carregar todos os seus bens, um filho – cangurus e alguns povos indígenas fazem isso com freqüência – ou uma coisinha diminuta, a opinião de todos é a mesma: bolsas são indispensáveis.

Geralmente coloca-se no mesmo saco (bolsa, saco... enfim) mochilas, bolsas carteiro, as terríveis pochetes ou até mesmo uma daquelas carteiras super desenvolvidas que alguns insistem em achar que é bacana. Eu, entretanto, chamo de bolsa o que os americanos e fashionistas costumam classificar como purse: aquela bolsa pequena, alça curta ou comprida, usada junto ao corpo ou à tiracolo. Bolsas como a preta que ilustra este post, como aquela que sua mãe, irmã, namorada tem guardada para ocasiões especiais, ou mesmo para usar naquele dia que querem ficar mais bonitas e elegantes.

Pela introdução acima, espera-se que eu fosse falar dos últimos lançamentos, do que é tendência agora e do que não deve ser usado jamais (pochete, já vou adiantando). Mas a idéia deste texto, na verdade, é falar sobre o fato de que nós, homens, não temos o direito de usar uma bolsinha numa ocasião mais, digamos, formal e/ou especial. Quer dizer, usar até podemos, afinal vivemos num país livre (sic). Mas já adianto que, caso realmente queiram fazer isso, preparem-se: serão fuzilados pelos olhares de reprovação de muita gente.

O assunto “combinação bolsa + homem” surgiu porque, outro dia (ontem, para ser mais exato) fui ao aniversário de quinze anos de uma prima. Sim, o mundo evolui mas elas continuam a fazer festas de quinze anos. Como a ocasião não era formal demais para usar terno e gravata e nem tão informal para um look jeans e camiseta, no extremo do básico, resolvi criar alguma coisa baseado nas tendências outono/inverno 2008. Sim, eu leio sobre moda desde sempre e sim, eu gosto.

Todo mundo que respira e presta um pouco de atenção em vitrines por aí sabe que o must para as próximas estações é o xadrez. Sim, parece que ele ganhou força nas coleções passadas e vai ficar mais um pouco nos guarda-roupas e nas lojas. O que é muito bom, por sinal, porque xadrez é sempre uma boa pedida. Claro, é preciso tomar um cuidado maior com combinações, temática que, talvez, desenvolverei mais tarde.

Há um mês, mais ou menos, olhando vitrines na Savassi antes de ir trabalhar, encontrei uma calça xadrez do jeito que procurava. Resolvi entrar e vestir, porque espelhos de loja não costumam mentir tanto. Além de ficar fantástica em mim, ainda estava numa promoção maluca (sim, algumas lojas fazem promoção com as peças da coleção antes da estação começar, de fato). Comprei e guardei, esperando uma oportunidade para usá-la. Cheguei até a levá-la na viagem da Semana Santa, mas rapidamente descartei a possibilidade de vesti-la após constatar o tamanho da cidade onde estava. Mas isso é assunto periférico nesse texto. Combinei então minha calça xadrez com um All Star de couro preto e uma camisa, também preta, com um corte reto e seco que remete ao estilo army. Foi aí que o tormento começou.

Consegui reduzir o que normalmente carrego todos os dias para três itens: chave do carro, chave de casa e documento do carro. Celular numa altura dessas nem pensar, e máquina fotográfica nos atualmente não é tão primordial assim. Hoje mesmo as fotos da festa já estão pipocando por ai em fotologs, flickrs e nos perfis do orkut de quem estava lá.

A chave de casa poderia ficar dentro do carro, jogada em algum lugar embaixo do banco. Mas e o documento do carro e a chave? Impossível colocá-los no bolso, porque fariam volume, marcariam e quebrariam todo o look pensado e repensado para a ocasião.

Foi então que pensei como seria prático e útil se fossem feitas bolsinhas para nós, homens. Porque claro que não dá para pegar a Fendi de alguém da sua família, colocar suas coisas dentro e sair por aí. Homens não precisam de bilhantes, grandes fivelas ou cortes mirabolantes. Uma simples baguette, ou uma bolsa quadradinha, já dariam conta do recado. Nada que um desfile haute couture da Maison Dior ou até mesmo a Chanel povoando as prateleiras não resolva!

segunda-feira, 7 de abril de 2008

De muitos cacos, xícaras



Querida L.S.,

Quanto tempo faz, menina? Um ano... um ano mesmo. Hoje! Como passou rápido. Não que não tenha sido doloroso esse um ano (e como foi, admito e confirmo e assino embaixo), mas também foi bom e passou muito rápido. Tão rápido que eu nem vi direito o que aconteceu. Mas isso é uma constante. O tempo passa mais rápido para mim, começo a perceber isso. Só assim para um ano ter passado mais rápido que minha última noite de sono. Que não foi muito longa, por sinal.

Nesse meio tempo você esteve no meu convite de formatura. No meu encarte, mais precisamente. Lá, logo no começo, vem uma citação sua. Daquela música que você escreveu e aquela cantora que gosto tanto gravou lindamente. E, anos depois da gravação - mais de vinte, é verdade - você me dá o cd e ainda diz que o menino da música poderia ser eu. Poderia não: sou eu! Sou eu porque descobrir que não ser mais menino é barra foi uma das constatações que, à duras penas, tive que fazer ano passado. E chega a ser irônico porque uma das primeiras frases da música é sobre a "vida passando, o tempo correndo". Um dos meus dilemas atuais, essa urgência de tudo, que faz o dia correr, a vida correr e quando se percebe, quando se percebe de fato, já é passado, pretérito perfeito e a gente nem lembra direito o que era. É estranho pensar que em um ano eu fui tanta coisa e hoje eu não sou quase nada. Digo, eu sou um homo sappiens, jornalista, 193 cm, cabelos cacheados, olhos verdes. O que mais? Talvez um alguém sensível, que gosta de filmes tristes e se preocupa com os outros, lê freneticamente a metade do ano e depois dá uma esfriada, ouve música o dia todo... Entre muitas coisas, é claro. Mas isso é suficiente? Acho que não e acho que sempre vai continuar não sendo. Primeiro porque há necessidade de sempre preencher, o máximo possível, a ficha cadastral de cada um. E depois porque essa ficha nunca vai estar completa.

Ontem eu vi uma peça de teatro que, acima de tudo, fala da capacidade que temos de adentrar a vida das outras pessoas, mesmo sem conhecê-las, e aferir coisas. Atribuir a esse ou àquele gostos, nomes, histórias, sentimentos. Eu me espanto muito com essa característica de formatar alguém antes mesmo de trocar um "oi". Algumas vezes dá certo, e já atribuimos de cara um "aquele ali gosta de cinema", quando de fato ele realmente gosta. Mas até que ponto é possível chegar? Até que ponto é possível apontar e dizer que determinada pessoa é ou não é, fez ou não fez, disse ou emudeceu?

Nunca mais visitei sua terra depois daquela vez que tentamos tomar um chileno e que você colocaria cartas para mim. Eu sei, eu não acredito muito, mas você tinha prometido e me jurado que era batata. E com você devia mesmo, já que anos antes de me conhecer você já tinha escrito parcialmente minha biografia. Estava pensando em dar uma volta pelo seu berço qualquer dia desses, aproveitar que as passagens de avião estão baratíssimas e que eu poderia muito bem ficar em um albergue ou pedir aquele meu amigo para dormir, sei lá, uns três dias na casa dele, caso não fosse causar transtornos. Mas ainda não sei...

Se essa carta não chegar até você, se por um acaso ela se perder no meio do caminho, talvez o carteiro pegue uma chuva e ela fique molhada, ou alguém misture com outro pacote e ela vá parar em outras mãos, não tem problema. Ela foi dita, escrita, e é isso que importa agora. Tem um trecho lindo do Caio Fernando Abreu, nas suas Pequenas Epifânias, que diz assim: "A única coisa que posso fazer é escrever — essa é a certeza que te envio, se conseguir passar esta carta para além dos muros. Escuta bem, vou repetir no teu ouvido, muitas vezes: a única coisa que posso fazer é escrever, a única coisa que posso fazer é escrever."


Beijos do seu...

F. D.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Fab Four


Parodiando Suélem Jobim: Sex and the City! Vi todas as temporadas. Acabou! E agora?